Chora, Ó Negro Irmão Bem-amado – Patrice Lumumba

Olá, pessoal!

Dessa vez estamos publicando um poema escrito por Patrice Lumumba. Nele, de maneira fantástica, o autor traça uma linha do tempo de toda a barbárie vivida pelos negros e imposta pela branquitude por meio do capitalismo. As sábias palavras de Lumumba descrevem a exploração dos corpos negros em África e na diáspora, desde o sequestro de nossos irmãos africanos para a escravização nas Américas até a colonização de África. 1004978-Patrice_Lumumba

Por fim, Lumumba demonstra sua esperança em ver o Congo e a África livres dos colonizadores e de qualquer exploração, libertação essa que só poderia ser conquistada por meio de luta e resistência!

Abaixo segue a íntegra do poema:

Chora, Ó Negro Irmão Bem-Amado

Ó Negro, gado humano desde há milênios
As tuas cinzas espalham-se a todos os ventos do céu
E construíste outrora os templos funerários
Onde dormem os carrascos num sono eterno
Perseguido e cercado, expulso das tuas aldeias
Vencido em batalhas onde a lei do mais forte,
Nestes séculos bárbaros de rapto e carnificina,
Significava para ti a escravatura ou a morte,
Refugiaste-te nestas florestas profundas
Onde a outra morte espreitava sob a sua máscara febril
Nos dentes do felino, ou no abraço imundo
e frio da serpente, esmagando-te pouco a pouco.
E depois veio o Branco, mais dissimulado, astucioso e rapace
Que trocava o teu ouro por pacotilha
Violentando as tuas mulheres, embriagando os teus guerreiros,
Recolhendo nos seus navios os teus filhos e filhas.
O tantã vibrava de aldeia em aldeia
Levando ao longe o luto, semeando a aflição
Anunciando a grande partida para margens longínquas
Onde o algodão é Deus e o dólar Rei
Condenado ao trabalho forçado, como um animal de carga
Da alva ao crepúsculo sob um sol de fogo
Para te fazer esquecer que eras um homem
Ensinaram-te a cantar os louvores de Deus.
E esses diversos cânticos, ritmando o teu calvário
Davam-te esperança num mundo melhor…
Mas no teu coração de criatura humana, não pedias mais
Que o teu direito à vida e ao teu quinhão de felicidade.
Sentado ao pé do fogo, com os olhos cheios de sonho e de angústia
Cantando melopeias que traduziam a tua tristeza
Por vezes também alegre, quando a seiva subia
Dançavas, perdido, no orvalho da noite.
E foi daí que jorrou, magnífica,
Sensual e viril como uma voz de bronze
Nascida da tua dor, a tua poderosa música,
O jazz, hoje admirado no mundo
Obrigando o homem branco a respeitar-te
Dizendo-lhe em voz alta que doravante,
Este país já não é dele como nos velhos tempos.
Permitiste assim aos teus irmãos de raça
Levantar a cabeça e olhar de frente
O futuro feliz que a libertação promete.
As margens do grande rio, plenas de promessas
São doravante tuas.
Esta terra e todas as suas riquezas
São doravante tuas.
E lá no alto, o sol de fogo num céu sem cor,
Com o seu calor abafará a tua dor
Os seus raios ardentes secarão para sempre
A lágrima que os teus antepassados verteram,
Martirizados pelos seus amos tirânicos,
Neste solo que tu amarás sempre.
E farás do Congo uma nação livre e feliz,
No centro desta gigantesca África Negra.

Patrice Lumumba

[poema publicado, pela primeira vez, em Setembro de 1959, no jornal INDEPENDANCE, órgão do Movimento Nacional Congolês (M.N.C.), partido que Lumumba passou a liderar a partir de Outubro de 1958. O poema foi reproduzido em La pensée politique de Patrice LUMUMBA, textes et documents recueillis par Jean VAN LIERDE, Présence Africaine, 1963, pp. 6970 e em Patrice Lumumba, a colectânea de textos apresentada por Georges Nzongola Ntalaja, CETIM, 2013, pp. 3133, de onde foi retirado para esta tradução e publicação.] (CULTURA-Jornal angolano de Artes & Letras)

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